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Abaixo-assinado Carta de Solidariedade a Dulce Pandolfi e outros pesquisadores do CPDOC-FGV

Para: CPDOC-FGV

UMA DEMISSÃO ARBITRÁRIA E INADMISSÍVEL NUMA INSTITUIÇÃO DE PESQUISA E ENSINO
No dia 6 de setembro de 2013, uma sexta feira à tarde, a direção do CPDOC demitiu sumariamente Dulce Pandolfi, uma das pesquisadoras conhecidas do CPDOC-FGV, autora de livros e trabalhos de referência sobre a história política contemporânea de Pernambuco, sobre o federalismo no Brasil, sobre o Partido Comunista Brasileiro, sobre a história contemporânea das favelas cariocas, sobre movimentos sociais. Além de historiadora do CPDOC, foi recentemente diretora do IBASE (que conciliava com suas 20 hrs. no CPDOC), e participou de júris de premiação de teses da ANPOCS. Em suma é uma militante da academia das ciências sociais brasileiras e uma militante cívica da história contemporânea brasileira. Este ano mesmo foi convidada pela Comissão da Verdade do Rio de Janeiro para ser uma das duas depoentes testemunhas da violência exercida pela ditadura militar em sessão pública inaugural. Seu depoimento é uma peça histórica de tal importância que é difícil o CPDOC, com seu famoso acervo documental das elites brasileiras (e um acervo menor referente a grupos populares e seus representantes, graças ao trabalho de alguns pesquisadores da instituição em que Dulce Pandolfi se inclui) ter um documento de tal expressão da densidade da condição humana em situações extremas. (Os historiadores do futuro estudiosos do depoimento de Dulce Pandolfi ficarão pasmos de saberem de sua demissão pretérita do CPDOC).
A demissão foi justificada por uma avaliação feita por comissão acadêmica de quatro membros. Os funcionários foram convocados a produzirem e apresentarem sua documentação. Sabedora da prática institucional recente da direção de demitir seus funcionários que atingem os 65 anos, Dulce Pandolfi não via razão para enviar seu dossiê, visto que atingiria tal idade em poucos meses. Apesar de estar em viagem foi compelida a apresentar seus documentos. As avaliações que nas instituições acadêmicas usualmente são feitas para dar lastro a progressões ou seleções para postos superiores, aqui serviu para demissões sumárias. As avaliações acadêmicas são bem vindas como fator de vitalização e aperfeiçoamento das instituições. No entanto a contabilidade avaliativa acadêmica já vem sendo posta em questão de forma arrasadora pela contra-expertise de acadêmicos tais como Marilyn Strathern (no caso da Inglaterra), e pode se tornar, à revelia dos avaliadores, uma arma perigosa na mão de direções tecnocráticas destemperadas por mandatos imperiais sem controle dos pares. A pretensa base acadêmica a ser legitimada pela contratação de banca avaliadora de alta qualificação se esvai diante do uso da avaliação feita por uma direção que carece de auto-avaliação e da legitimidade acadêmica que é a rotatividade de mandatos de direção e coordenação. Prática esta que contraria inclusive a história precedente desta instituição de pesquisa histórica, o CPDOC, que sempre teve, no seu passado, mandatos fixos de consenso geral. Se esta instituição quer se mirar nas práticas acadêmicas de excelência, sem dúvida falta-lhe agora a legitimidade da pratica universitária democrática elementar, cuja eficácia é dada pelos contrapesos da variedade sucessiva dos dirigentes bem como da prática de capacitação compartilhada de direção pelos pares ao longo do tempo. Além disso, a presença de instâncias de participação do conjunto dos pesquisadores e professores em atividades de deliberação presenciais, em que a direção presta contas ou se inspira da opinião dos colegas, é sem dúvida uma prática acadêmica que qualquer avaliação da instituição deve levar em conta. Para que inclusive a longa permanência do dirigente, indicado por cima e não pelos pares, não seja eivada de suspeitas de sua perseguição subjetiva a colegas avessos a suas idiossincrasias.
E assim se chega ao paradoxo desta instituição famosa de pesquisa, documentação e ensino de história contemporânea ser palco, aos seus 40 anos de idade, da demissão de uma de suas pesquisadoras renomadas, que fez parte da construção do seu prestígio ao longo do tempo (e que nela está há 40 anos); e feita sumariamente à revelia das demais instâncias de coordenação e às escondidas dos colegas. Ao paradoxo de uma instituição que deposita a documentação da história contemporânea do Brasil, que organiza e conhece as vicissitudes das práticas democráticas e das práticas ditatoriais deste período, e que com base nela produz pesquisa e ensino de qualidade; seja a mesma instituição que se apresenta agora como uma instituição de direção verticalizada e, sob este aspecto, ignorando a construção universitária ou acadêmica destes últimos 40 anos que se distanciou do antigo poder absoluto do catedrático. Além de demitir uma pesquisadora experiente, a direção do CPDOC dispensou da mesma forma também o jovem pesquisador Cláudio Pinheiro, fazendo com isto atemorizar as novas gerações com as quais a instituição procuraria se renovar, o que não parece uma forma recomendada de reprodução acadêmica.
A demissão de Dulce Pandolfi não pode ser silenciada. Como foram silenciadas as demissões de outras pesquisadoras ao completarem 65 anos no auge de sua produção e relevância acadêmica – prática que faz parte de uma concepção eliminatória da idade estreita e de eficácia empresarial duvidosa (limite anterior ao que acontece nas universidades federais e estaduais, fixadas aos 70 anos; mais estreita que centros acadêmicos de países centrais que se fixam no entorno dos 65 anos mas que estimulam alguns com mais dois anos, etc. e a contracorrente de inciativas como as de bolsas sênior do CNPq, de estímulo à retenção produtiva dos mais experientes). A dispensa recente de Lúcia Lippi, Helena Bousquet Bomeny, Angela de Castro Gomes, Marly Motta, entre outros que resolveram sair por conta própria devido a essa pretensa regra representa uma grande perda institucional, por enquanto menos notada pela comunidade acadêmica geral pela frieza e silenciamento com que foi produzida.
A demissão de Dulce Pandolfi, antecedendo caprichosamente o limite de idade arbitrado há pouco tempo pela instituição é uma demissão idiossincrática de uma direção verticalizada e sem interlocução deliberativa com os pares – algo que está longe de uma prática acadêmica minimamente avaliada e consagrada. E que chama a atenção para a dispensa de outros pesquisadores experientes. É um capricho que priva o professor (neste caso uma paraninfa recente de turmas do CPDOC) de finalizar seu curso, suas atividades de orientação programadas, prejudicando a alunos e pós-doutorandos. E é um acinte a toda a geração de colegas e admiradores de Dulce Pandolfi -- exemplo de historiadora, professora e cidadã cuja militância e testemunho na luta pelos direitos humanos é um orgulho da história brasileira.



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